A “guerra das estrelas” em versão angolana

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José Eduardo dos Santos e João Lourenço

As duas principais “estrelas” da política doméstica, designadamente João Lourenço e José Eduardo dos Santos, estão em “guerra” há muito tempo, embora num determinado período tivesse havido o que se pode considerar uma “trégua”. Correligionários no MPLA, ambos andam agora de costas viradas por desinteligências relativas à forma de gestão do país, nomeadamente o tratamento dado àqueles que delapidaram o erário, o mesmo que dizer aos “marimbondos”, palavra introduzida no léxico político angolano pelo actual Presidente da República para veladamente apelidar os “eduardistas”.

A “guerra” há muito iniciou. Tem quase duas décadas e conheceu o seu primeiro confronto público em 2002, quando João Lourenço, então secretário-geral do MPLA, pressionou José Eduardo dos Santos a honrar a palavra empenhada em 2001 quando disse que “o próximo candidato do MPLA às eleições presidenciais não se chamará José Eduardo dos Santos”, em virtude de a sua geração ter cumprido já o seu papel na história.

Na sequência desse pronunciamento, João Lourenço fez uma longa travessia no deserto. Passou por “apertos” sérios que o forçaram a adentrar o mundo dos negócios, imitando a maioria dos políticos, num processo de acumulação primitiva de capital, como o seu chefe havia justificado. Nas vestes de empresário-político juntou-se ao amigo Eugénio Laborinho, a quem mais tarde iria confiar primeiro o cargo de governador da província de Cabinda e depois de ministro do Interior. Além de um pequena granja nos arredores de Luanda, João Lourenço também tentou entrar na mineração, entretanto, sem sucesso. Teve de contentar-se com a condição de abastecedor principal de combustível do Catoca, a maior mina de diamantes do país, na Lunda Sul.

Arrumada a “velha guarda” do MPLA (Lúcio Lara, Paulo Jorge, Mendes de Carvalho e outro…) e com o poder consolidado por via da compra de lealdades, José Eduardo dos Santos movimentava as peças do xadrez político da “Grande Família” como lhe dava na real gana. Desse modo, manteve João Lourenço durante muito tempo no “congelador”, tirando-o só depois de perceber que o homem que havia “exigido” a sua saída estava finalmente quieto. Pelo menos é o que aparentava. Naquele período e como acontece frequentemente em Angola, os amigos de JLo  “desapareceram” e os correligionários evitavam-no como a alguém padecendo de doença altamente contagiosa.

Como fazia com os seus parceiros de partido “mal-comportados” num determinado momento, depois de um castigo começava um lento processo de reabilitação política. Foi assim que levou várias pessoas em alucinantes viagens do “inferno” para o “paraíso” político. Com isso, em regra ganhava novamente e em doses maiores a admiração do visado, alcandorado-o novamente ao Poder que, noutros tempos, significava riqueza. Um desses exemplos é Manuel Rabelais, exonerado de ministro em 2010 para depois regressar com super-poderes no cargo de director do extinto GRECIMA. Aconteceu o mesmo com Kwata Kanawa, saído do centro de decisão do partido, depois de criticar a Constituição Atípica, para voltar como governador de Malanje.

Desse modo e salvo raríssimas excepções como Marcolino Moco, Ambrósio Lukoki, Alexandra Neto e pouco mais, o MPLA praticamente passara a José Eduardo dos Santos um cheque em branco para governar a seu bel-prazer. E o homem não se fez de rogado. Nessa condição, pôde utilizar pessoas como joguete às suas mãos, manipulou militantes, baralhou as cartas e jogou como quis. Ao ponto de chamar a si uma série de poderes, através de uma “constituição atípica” que comentaristas pagos a peso de ouro, enquanto os seus concidadãos continuavam sem acesso à água potável e à energia eléctrica, classificaram nas rádios e nas TV’s como das “mais avançadas do Mundo”, numa campanha que parecia visar a consagração do “Rei Sol”, de alguém omnisciente, omnipotente e omnipresente, enfim de um Deus na Terra. Que o digam os “Espontâneos” desta vida…

É nessas condições que, num claro gesto de puro nepotismo nomeou o filho varão para liderar uma das mais importantes instituições do país, o Fundo Soberano de Angola, onde chegou praticamente sem nunca ter trabalhado, tal como o pai cujo primeiro emprego da vida foi o de… ministro das Relações Exteriores. Apesar de ter um gabinete na sede da Sonangol, José Filomeno dos Santos “Zenu” não tinha grande experiência profissional. Era só “o filho do presidente” e isso na Angola de há poucos anos valia mais do que qualquer mérito profissional ou diploma de Harvard, Cambridge ou Coimbra.

Face à tamanha afronta, o país calou e fingiu não ver. As poucas vozes que se ouviram ou falaram baixinho de mais ou foram simplesmente ignoradas. Aconteceu o mesmo quando nomeou a filha primogénita para a presidência do Conselho de Administração da Sonangol, o “motor” da economia de Angola. Assim como “Zenu” nunca havia servido em nenhum departamento governamental ou empresa pública, Isabel dos Santos também nunca esteve ligada à “coisa” pública. E mesmo tendo milhentos negócios, nos mais distintos sectores da economia (ocupada demais, portanto), o pai entendeu que era a pessoa melhor preparada para convencer a OPEP e a outros países produtores não alinhados com o cartel a voltar a colocar o preço do petróleo acima dos USD 100 o barril para novo regabofe com o dinheiro público.

Ao entregar de mãos beijadas o poder aos filhos, JES sabia que continuaria a ter muito poder. Era como, mesmo retirado, ter o controlo remoto do país, já que, além do petróleo, a filha controlava também os diamantes. Como se sabe, ambos os produtos representam quase 100% das receitas do país. E desse modo, mesmo à distância, o cimento do poder de JES ficaria mais sólido com o filho varão sentado em cima da massa que o país guardou e a filha a controlar, por via da Sonangol, a outra parte do dinheiro do país. Portanto, adivinhava-se que JES mandaria em Angola até à morte… Pensar assim era, aliás, o mais natural.

Entretanto, João Lourenço acabava de fazer a terrível travessia no deserto. Aos poucos ia colocando a cabeça acima da água até emergir completamente como um dos maiores produtores de milho de país. Base alimentar de grande parte da população angolana e produto com amplo mercado interno devido ao papel que joga na produção de rações animais e não só, o milho é… ouro, enriquece de modo rápido e seguro. De resto, a produção doméstica não satisfaz ainda as necessidades do país, que para supri-las tem de importar. Não sendo propriamente milionário, como a “filha do outro”, João Lourenço começava a ter “algum dinheiro”, o que lhe dava mais tempo para dedicar-se sem sobressaltos à carreira política. Mas sem grandes alaridos.

Regressado ao Poder na qualidade de ministro da Defesa, João Lourenço fingiu-se de morto, ao ponto de convencer o chefe de que concluíra o processo de “redenção”, que era mais um dos “seus”. Durante anos não fez ondas e ganhou a confiança política do chefe que o propôs como substituto. Afinal, tudo indicava que deveria obediência e seria grato a quem o alcandorara à mais alta magistratura do país. Tremendo engano, a provar que JES já não era o “animal político” de outros tempo. As três décadas de poder desgastaram-no, perdendo habilidades e “faro”. Por isso, apostou no “cavalo errado”, no homem que decidiu seguir ao pé da letra o programa de governação do MPLA e encetar uma luta sem quartel contra a corrupção.

Nisso, João Lourenço colocou “Zenu” na cadeia e já tirou a Isabel dos Santos USD 22.600 milhões em negócios que o pai lhe deu de modo despudorado e que agora foram anulados. A estratégia é claramente enfraquecer o “inimigo” para as próximas batalhas. A luta de poderes em Angola continua, pois, agora no espaço sideral, onde passam boa parte das comunicações mundiais, através dos satélites. João Lourenço não ignora que o “Quarto Poder” já não é a Comunicação Social. Por tudo o que representam, hoje são as telecomunicações. E são um poder sem o qual não se está seguro e muito menos confortável num outro poder qualquer.

É a “Guerra das Estrelas” em versão angolana…

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